quarta-feira, 11 de julho de 2012

EM TORNO DO VAZIO, VIRGINIA WOOLF





Ana Martha Maia (EBP/AMP)
Entre os grandes nomes do modernismo, Virginia Woolf se
destaca com diversos artigos, romances, ensaios, uma peça, a
fundação de uma editora junto com o marido e a participação
no grupo de intelectuais Bloomsbury, deixando seu nome marcado na história da literatura. Abordou inúmeras vezes a temática
do universo feminino. Enquanto Freud em seus estudos sobre a
sexualidade feminina estava às voltas com a questão do que é a
mulher a partir do relato de mulheres que a ele se queixavam de
seus sintomas, como mulher e escritora, Woolf se indagava sobre
o lugar da mulher na sociedade vitoriana e na literatura escrita
por mulheres. Restrita ao espaço privado, à organização do lar e
ao casamento, no âmbito público frequentava os encontros sociais em igrejas, bailes ou na casa de outra dama, mas no cenário
literário a mulher somente participava como personagem de um
escritor. A maioria não era nem alfabetizada.
No ensaio Um teto todo seu, Woolf (1929) conta que é convidada para falar sobre a mulher e a ficção:


“Tudo o que poderia fazer seria oferecer-lhes uma opinião acerca de um aspecto insignificante: a mulher
precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção; e isso, como vocês irão ver,
deixa sem solução o grande problema da verdadeira natureza da mulher e da verdadeira natureza da ficção.
Esquivei-me ao dever de chegar a uma conclusão sobre essas duas questões — a mulher e a ficção, no que
me diz respeito, permanecem como problemas não solucionados”(p. 8).
Nessa mesma época, Freud (1932) aborda o problema da natureza da mulher contando em uma de suas
conferências que após um longo percurso de trabalho sobre o tema, a mulher permanecia para ele como o
enigma sobre o qual considerava sua teoria não concluída. É justamente com este enigma que Woolf começa
sua apresentação, dizendo da impossibilidade de desvendá-lo. Como Freud que recorre aos poetas, apostando na feminilidade como uma invenção, Woolf aproxima a mulher da ficção.
Há um tom feminista em Um teto todo seu. No entanto, na linguagem dos teóricos da literatura, Woolf
vai além da “voz feminina silenciada”, ou de uma “escrita feminina”, propondo uma escrita sem “gênero”.
Precedendo Lacan, como ele mesmo havia dito que o artista precede o psicanalista, a seu modo ela se refere
à posição feminina, não importando se quem escreve é um homem ou uma mulher.
Seis personagens, o conto
Se a “solução” no ensaio de 1929 é um quarto e algumas libras por mês para que uma mulher possa se
dedicar à escrita, no conto Uma sociedade, Woolf (2005) aponta na delicada relação mãe-filha a possibilidade de transmissão do desejo feminino, em sua singularidade. Em 1910, cinco jovens mulheres fundam uma
“sociedade secreta de fazer perguntas”. Todavia, no caminho, elas se perdem nas respostas, encantadas pela
referência fálica.
“Umas olhavam pela rua para as vitrines de uma chapeleira onde a luz ainda brilhava intensamente sobre
plumas escarlates e chinelos dourados. Outras estavam ocupadas em construir pequenas torres de açúcar na
borda da bandeja de chá. Passado um tempo, pelo que eu lembro, juntamo-nos em volta do fogo e começamos a elogiar os homens, como de hábito – tão fortes, tão nobres, tão brilhantes, tão corajosos, tão belos –
como invejávamos as que por bem ou por mal deram um jeito de se ligar para sempre a um deles! – quando
Poll, que não tinha dito nada, explodiu em lágrimas” (p. 176).
Entre a guerra, a vida privada e a angústia de cada personagem, Woolf indica uma solução singular, no que
uma mãe pode transmitir a uma filha: “depois que ela [a filha] aprender a ler, somente numa coisa você pode
ensiná-la a acreditar – nela mesma” (p. 182).
Seis atrizes, a peça
Do conto ao palco, seis atrizes mergulham nas perguntas que as mulheres vitorianas se faziam e se interrogam nos bastidores sobre o desejo feminino em nossa época. No período de ensaios, relatam no debate
como foram tocadas desde a construção de cada personagem até o momento sempre único de cada dia de
apresentação.
Seis psicanalistas, o Encontro
Uma atividade da Comissão nãotoda foi organizada no Rio de Janeiro em torno de Uma tempestade, do
conto homônino de Woolf. No dia 12 de abril, após a apresentação da peça no Solar de Botafogo, seis psicanalistas da EBP/AMP - Ana Martha Maia (coordenação), Fernando Coutinho, Elza Freitas, Maria Silvia Hanna,
Sandra Viola e Stella Jimenez – sentaram no palco com as atrizes e o público participou ativamente de uma
conversação sobre o tema “Mulheres de agora: figuras do feminino no século XXI”, do XIX Encontro Brasileiro
do Campo Freudiano que será realizado em Salvador, nos dias 23 e 24 de novembro.
Bibliografia
Freud, S. (1932) “A feminilidade”. Obras Completas, vol. XXI. RJ: Imago. 1976.
Woolf, V. Contos Completos. São Paulo: Cosac Naify. 2005.
Woolf, V. (1928) Um teto todo seu. RJ: Nova Fronteira.